8.6.09

lamúrias com gin.

Estava eu caminhando por aí (pois deixei de navegar, os tripulantes não me agradam muito), e caio neste trecho perdido pelas cybervias como se fosse um bueiro aberto. Já conhecia, mas não tomava como algo de muita importância entre tantas e tantas páginas mais significativas que li do meu mestre de bebedeiras e “putaniedades” em poesia e prosa. Desta vez me bateu como vinho barato, e tive que regurgitar para vocês. Adoro recomendar coisas, apresentar caminhos, conversar horas e horas sobre idéias para quem sabe a pessoa resolver entrar no meu tonél infectado. Mas será que todos estão preparados para a qualidade? A maior parte das pessoas prefere dançar em território fácil, e as vezes se prospecta nele como sendo algo grandioso. Como diz Buk, gritam “Bravo! Bravo!”, e o ego acompanha “Bravo! Bravo!”. Mas algo mudou? Certeza que você estava preparado? Certeza que valeu a pena integralmente? Alguns viajam por livros, filmes, músicas, peças, quadros, danças, e outros, como se indo para um país novo. Viajar é o que conta, claro, acho que todos devem viajar e aproveitar. Mas alguns irão chegar lá, e guardar lembranças. Outros vão guardar experiências. É a experiência de saber que ali houve tal batalha, e que aquela obra é importante por isso, e que a pessoa que construiu aquilo fez por tais e tais motivos. Pouco muda, pouco importa, é só um estilo diferente de ver as coisas. Para alguns uma coletânea com o melhor de Beethoven já basta, para outros a refeição só vem completa com as sinfonias integrais de Mahler. Muda algo? Acho que não. Continuarei recomendando coisas por aí, mas fico triste que nem todos vão querer e poder absorver deste meu veneno, bem como eu tenho certeza que ainda não posso absorver de muitos venenos por aí. Sim, esta reclamação em forma de carícias serve para mim também. Meus amigos, mais sei, menos sei. A questão não é o quanto se sabe, mas o quanto se deseja saber. Esta enrolação foi para pedir uma abertura de mente, uma isca para um dia de pesca, um caldo de carne para o purê de batatas que está saindo pela orelha de vocês neste momento. Este amarelo do purê precisa ganhar um tom vermelho, e adivinha quem pintará usando bastões, garrafas de cerveja e molho picante? É contigo velho safado!

“tem uma orquestra sinfônica lá na costa leste. o regente faz o maior sucesso tocando o que só posso classificar de Melodias pra Principiantes. esses trechos de música que agradam a quem é inexperiente em matéria de música clássica. mas se o sujeito tem um pingo de sensibilidade, não pode escutar essas peças mais do que 4 ou 5 vezes sem sentir náuseas. essa determinada orquestra vai besuntando aquilo semanas a fio e a platéia, formada na maior parte por pessoas de meia idade, (e não me perguntem de onde saíram ou porque são retardadas: é algo que me escapa por completo) depois de ouvir essas peças banais, básicas e bastante melosas, pensa de fato que está diante de algo novo, grandioso e profundo, e pula e grita “BRAVO! BRAVO!” exatamente como ouviu falar que é assim que se faz. o regente vem dos bastidores, agradece os aplausos uma porção de vezes e depois pede pra orquestra levantar. a única idéia que me ocorre é: será que ele sabe que está tapeando essa gente ou também é retardado mental?



algumas das peças que teria que incluir na escola de alfabetização musical e que esse regente gosta de tocar são: La Vie Parisíenne de Offenbach, o Bolero de Ravel, a abertura de La Gazza Ladra de Rossini, a Suite Quebra-Nozes de Tchaikowsky (cruz, credo, te esconjuro!), trechos da Carmen de Bizet, El Salon Mexico de Copland, a Dança do Tricórnio de De Falla, a Marcha Pompa e Circunstância de Elgar, a Rapsódia em Blue de Gershwin (cruz, credo, te esconjuro, pela segunda vez!) e várias outras que de momento não me vêm à lembrança…

mas é só deixar essa platéia em contato com essa verdadeira usína de açúcar pra logo ficar reduzida a um estado de imbecilidade digno de um bando de macacos.”

de Fabulário Geral do Delírio Cotidiano
de Charles Bukowski
Editora Brasiliense, 1984
Tradução de Milton Persson