11.9.11

Deslimite: um filme-entrevista estrelando Augusto de Campos



Se a melhor crítica de uma obra de arte parece ser outra obra de arte, como contar - sem cantar poesia - o “pulsar quase mudo”, pós-tudo, o “quanto mais poetamenos dizer” do poeta Augusto de Campos?

Sob o metro de um ensaio interdisciplinar, crivo bem temperado que opere um guisado de prosa porosa, subdivisões prismáticas da idéia e montagem russa, busquemos a síntese de um texto-cinema, que tente desbravar caminhos não balizados e nos aventure a novos territórios, sem bulas e bússolas. Invenção de formas; essências e medulas.

Ou, para citar os títulos de dois artigos antigos do próprio Augusto, algo que conjugue “poesia, estrutura”, “poema, ideograma”. Panaroma, harpdiscórdia, colidouescapo. A proposta de um “Deslimite” estrelando Augusto de Campos. Mais que um roteiro crítico, um "cinema escrito", que articule opinião e invenção, uma espécie de "cinema" vanguardo-crítico-didatizante, que consiga ao mesmo tempo instigar e educar.

Nos últimos meses, Augusto teve lançadas duas antologias de poesia: “Viva Vaia” (terceira edição ampliada), editada no Brasil pela Ateliê (com poemas de 1949 a 1979) e “Anthologie - Despoesia”, editada na França pela Al Dante -poemas de “Viva Vaia” e mais “SOS” (1983) e “Pós-Tudo” (1984), traduzidos por Jacques Donguy.

Essa antologia bilingüe foi lançada no Salão do Livro de Paris em abril e no Salão do Livro de Genebra no início de maio. Nesta última, fez-se acompanhar de uma bela apresentação de “Poesia é Risco”, espetáculo intemídia de poesia, música e imagens, com a participação de Cid Campos e Walter Silveira.

É possível que esta gravação do recital em francês se transforme em cd ou cd-rom, a ser lançado na França ou na Suíça. Mas Augusto de Campos tem mais projetos: poemas novos (“digitais” e em papel) que podem ser coligidos num cd-rom e num livro que pretende editar ainda este ano. E agora talvez seja a hora de rimar as luzes e da tela projetar-se este piano preparado AC / CA.



Abertura

Como uma decupagem técnica. Close em partículas brilhantes vibrando na tela-página. Câmera afasta-se (zoom-out da lente) e revela os cristais líquidos na crista da onda.

A água se espraia, grãos se agitam. Zoom-out continua e revela um mar na tela do computador. A maré marulha. Vemos o reflexo do rosto de Augusto de Campos sobreposto à imagem do mar em plano próximo.

Câmera se afasta mais -plano geral- e faz uma panorâmica circular pelo gabinete de trabalho do poeta (estantes com livros, cds, objetos de arte). A panorâmica desloca-se em para o centro do quadro -a estação digital (computador, scanner, impressora)- e inicia ascensão em travelling perpendicular. Tomada em plongée (câmera alta) escrutina o poeta compondo poemas na tela-mar.


Primeira tomada – DexPoetaMenos

Hoelderlin abre o primeiro livro de poemas de Augusto de Campos e encontra um verso seu como epígrafe de “O Rei Menos O Reino” (1951): “E para que poetas em tempo de pobreza?”

Webern faz uma pausa-paráfrase de Hoelderlin -“viver é defender uma forma”-, antes de perguntar a Augusto: qual o valor da poesia hoje?

Augusto de Campos:
A poesia cumpre o papel que sempre cumpriu. Nas palavras de Pound: “Poets are the antennae of the race”. Só que os alarmes das antenas dos poetas não costumam ser detectados, num primeiro momento (ponha nesse “momento” décadas e às vezes séculos) pelos canais de recepção da imensa maioria, para a qual a poesia é uma espécie de conversa de marcianos.


Mistério-Bufo: ao ouvir o locutor decretar a vitória do garção de costeleta no sistema babilônico, Oswald resvala a pança no rádio à janela (sintoniza a novela “Desatinos do Destino”).

A antena quase cai do alpendre. Apedrejado pelas ruas da província, Sousândrade suspira o risco da poesia: “Ouvi dizer, por duas vezes, que a minha poesia só será entendida daqui a 50 anos. Entristeci. Tristeza de quem nasceu 50 anos antes”.

Augusto de Campos:
Mesmo assim, o poeta deve continuar, ainda que simbolicamente, a exercer a sua missão, fazer o seu trabalho, sem concessões, seguro de que o tempo -o longo tempo- irá resgatar as suas mensagens-em-garrafa atiradas ao espaço da linguagem, o seu “pulsar quase mudo”.


Enquanto escreve uma nova composição na partitura musical, Schoenberg recita: “O artista nunca faz o que os outros acham bonito, faz apenas o que ele acha necessário”.

Enquanto pinta um novo filme no rolo de celulóide, Oskar Fischinger medita: “Há apenas um caminho para o artista criativo -produzir somente pelos mais nobres ideais- o verdadeiro artista não deve se importar se é compreendido ou incompreendido; ele deve ouvir apenas seu espírito criativo e satisfazer seus mais altos ideais, confiando que este será o melhor serviço que ele pode prestar à humanidade”.


Augusto de Campos:
O valor da poesia está no seu desvalor mercadológico. Na ética da sua inutilidade. Não se vende e por isso não tem compromissos senão com ela própria. Não tem utilidade prática. Por isso é útil. Sua anárquica contraproposta existencial tem em vista resgatar a essência melhor do ser humano, sufocada pelos instintos primários da ambição e do lucro, que infelicitam o convívio social.


Sem esperança nem temor, saído do Inferno de Dante, Ezra Pound adentra a ágora e desfralda uma bandeira-farrapo de seda: “A usura é um câncer no azul”.

Saído do Inferno de Wall Street, com sua harpa exquisita e farpa selvagem, Sousândrade prepara-se para desafinar o coro dos contentes de nosso tempo.

Augusto de Campos:
Por isso, o poeta, mesmo desprestigiado pelos meios de comunicação, mesmo “à margem da margem” (Décio Pignatari), mantém a sua identidade e a sua aura de loucura e pureza, num meio que se pretende racional e civilizado, mas em que predominam o egoísmo e o interesse material.


Pária numa praia de ossos, “artista sem arte -ao inverso”, Corbière pinta seu epitáfio na magra paisagem má, bêbado da borra de ser vida, “bem logrado malogrado”.

No centro da praça (a multidão na platéia centrífuga), John Cage senta-se ao piano para apresentar uma das versões de sua “Conferência sobre Nada” -a peça “ 4’33” ”. Imóvel, o músico toca o silêncio.

A luz das palavras: “Mas, luminosos ou filmletras, quem os tivera!”. No vale do Anhangabaú, populares aglomeram-se para ver a multiplicidade de vocábulos -cauda sem fim cidade, city, cité- despejar-se da marquise sobre a cidade.


Plano-Seqüência - Vertigem do Paideuma, Miragem do Cinema

Do horizonte improvável, deslinda-se uma nebulosa, caos cósmico -“i punti luminosi”- de grãos f(ec)undantes -nutrimento de impulso. Rever o olor que livra e lavra -“make it new”. Sob esse anticéu parietal, noosfera que gera e interroga, pergunto ao poeta: Quais são os poetry makers que é preciso ler hoje, pela importância intrínseca e pelo valor das palavras para a nossa época?

Augusto de Campos:
Os fundamentais são os mesmos que anunciamos há 50 anos atrás: Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings.


Mallarmé imprime na oficina as páginas de seu lance crucial e diz a Augusto: “Não conheço outra bomba a não ser um livro”.

Augusto de Campos:
Mallarmé é o limiar da poesia da modernidade. Seu poema “Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso” (1897), propagado no enclave de dois séculos críticos, toca em todos os problemas básicos das poéticas dos séculos 20 e 21. Desestrutura e reestrutura o texto, como um mapa visual e como uma partitura. Suas “subdivisões prismáticas” antecipam o cubismo, revalorizam o silêncio e, a longo prazo, sugerem o hipertexto. Poesia tempo-espacial antes do tempo, que tematiza as questões do acaso e do caos e joga os dados para o futuro.


Acu(s)ado isano, por um tempo doente, Pound sai da gorilla cage a que fora confinado e diz a Augusto: “bright brazilians blasting at bastards”.

Augusto de Campos:
Pound colocou a invenção como parâmetro básico do comportamento poético. Criou uma nova modalidade de crítica. A crítica via tradução, com a qual inventou, modelarmente, chineses e provençais para a poesia moderna. Instaurou novos procedimentos poéticos com seu método ideogrâmico, que assimila a montagem e a colagem em módulos conseqüentes mesmo em poemas longos como “Os Cantos”.


Joyce tropeça entre tragos, dribla o desvio de Dublin e a dobra da Bahia, e diz a Augusto: “from Blasil the Brast to our povotogesus portocall”.

Augusto de Campos:
Joyce, com suas células vocabulares cambiantes, caleidoscópicas, abriu novos caminhos para a poesia e para a prosa, criando textos indeterminados, polissêmicos, mas ao mesmo tempo rigorosos em sua construção referencial. Romances para acabar com o romance.


Prova de exigência e fôlego do artesanato furioso, Cummings revisa provas tipográficas e diz a Augusto: “uma folha cai contra a humanimaldade”.

Augusto de Campos:
Cummings revolucionou a própria palavra, atomizou-a, revitalizou a mortografia cotidiana com sua tortografia, provocou novas relações intervocabulares em minipoemas concisos e precisos, que se desconstroem e reconstroem os textos em modelares móbiles verbais de multileituras.
Entre nós, Oswald de Andrade e João Cabral de Melo Neto, e, acima de todos, Sousândrade, cuja linguagem ainda não foi inteiramente assimilada nem decifrada.



Oswald acerta o relógio e o trem da história para a frente; apanha os óculos na latrina e garatuja versos de quatro letras na lousa megalítica: “humor amor”.

Ainda não escalpelado, autografa um caderno do aluno de poesia das indústrias reunidas O. de A. e dedica à firma de Augusto: “A poesia para os poetas -a prova do novo- somos concretistas”.

Augusto de Campos:
Oswald radicalizou o nosso moderado modernismo com a sua antropofagia, metáfora antropológica que constitui a nossa única criação filosófica e com a qual canibalizou a cultura européia e armou os seus poemas-minuto e a prosa inventiva de “Serafim Ponte-Grande”.
João Cabral: o rigor construtivo de sua poesia de pedra, insubornável até nas suas limitações. Arquitetura e antimelodia. Contra uma “tradição de tagarelas”: não-sentimentalismo. Desegotização. Duro e puro. “Não posso me renovar, calo-me”.



João Cabral crava faca só lâmina no açúcar da cana, educa a antiode inconfessável pela pedra, e diz a Augusto: “Lição de poesia a palo seco”.

Augusto de Campos:
Sousândrade: pré-tudo. Pré-colagem e pré-montagem nas estrofes satíricas do “Inferno de Wall Street”, poema que não tem equivalente em outras literaturas no seu tempo. A ousadia da experimentação em todos os sentidos. “Sobre-rum-nadam”, “fossilpetrifique”. Um milagre de invenção até hoje não entendido e talvez não merecido pelo nosso meio.


Sousândrade peregrina pelos escombros malditos de um terremoto clandestino, e diz a Augusto: “Há mundo porvir?”

Augusto de Campos:
Mas se se perceber a diferença que há entre um inventor, um mestre e um diluidor, pode-se ler tudo. A poesia é grande e há grandes poetas como Pessoa, Rilke, Maiakovski, Tzvietáieva, Stramm, Apollinaire, Lorca, Dylan Thomas e tantos outros (para falar só do século 20). De todos é possível extrair encantamentos e ensinamentos preciosos.


Cage colhe cogumelos e ruídos num parque imaginário de Manhattam, e medita: “i am here and i have nothing to say and i am saying it and this is poetry”.

Augusto de Campos:
Eu hoje acrescentaria à lista dos poetas indispensáveis os textos do multiartista John Cage, superiores a tudo o que se chama de poesia americana pós-Pound. A fortíssima geração modernista americana, que inclui ainda figuras de proa como Eliot, Gertrude Stein, Cummings, Wallace Stevens, William Carlos Williams e Hart Crane, deixou as gerações subseqüentes numa espécie de estupefação poética, até hoje não resolvida.


Antes de perguntar “se não há resposta, então qual é a pergunta?” e fazer a rosa ficar mais vermelha no jardim das letras, Gertrude, em seu leito de morte, rasgou as autobiografias de fofoca de todo mundo e daí disse a Augusto: “there was nothing to say because just then saying anything was nothing”.

Augusto de Campos:
Não dá para comparar com eles os Beat, nem os discípulos pós-modernistas como Zukofsky e Oppen (por maior que seja o esforço da crítica recente americana em supervalorizá-los) e muito menos os “language poets”, mais interessantes pela pesquisa do que pela poesia, incongruentes na hierarquização dos valores poéticos e paradoxalmente mais propensos a responderem às novas mídias com idioletos não-referenciais do que com ciberpoéticas competentes.


Na vertigem do corpo morto que cai, entre os descaminhos da selva selvagem e obscura, Dante chama Arnaut Daniel, “il miglior fabbro del parlar materno”.

Alto e baixo por entre as folhas, poema da presença de Provença cantar veio para Augusto: “Eu sou Arnaut, que amasso o ar, amo Laura, caço a lebre com o boi e nado contra a maré”.

Augusto de Campos:
Não é preciso dizer o quanto (e muito mais) se aprende lendo Homero, Dante, os trovadores provençais ou os “metafísicos” ingleses etc. etc. Durante meio século, via tradução, Haroldo, Décio e eu nos devotamos a recriar em língua portuguesa, um “corpus” do que de melhor se fez em poesia, do chinês ao russo, com ênfase na invenção. Por que não visitá-lo?


Sob o olhar telúrico da tertúlia em trio, uma épica sem enredo encapsulada em caleidoscópio desenrola-se de diante de Augusto, Décio e Haroldo.

Após receber de Pound o subsídio para publicar “Ulysses” e espalhar pelos ares os manuscritos de “Finnegans Wake”, Joyce interpela-o: “to beg for a bite in our bark Noisdanger”.

Pound vira a página e a clepsidra do avesso, perfura minas na terra devastada - “dichten = condensare” (poesia = concentração) -e pergunta ao trovador Arnaut: “Mas, Noigandres, eh Noigandres! O que quer dizer isto?”.

Colhendo no ar a tradição mais viva, colorindo “o canto de uma flor cujo fruto seja amor”, o grupo de poetas paulistas encastelado no morro das Perdizes viria a adotar a palavra-enigma como mote de experimentação e nome de pesquisa poética em 1952.

Francis Picabia e Man Ray pegam a revista “Invenção”, sob a foto dos poetas Noigandres, e descortinam a tela (trompe-l’oeil que iludia a falsa paisagem) para o Entreato, enquanto Erik Satie e René Clair preparam a próxima cena.


Cena 3 - Impulsos em Rotação

Marcel Duchamp apanha a “Invenção” , abre seu museu-valise de projetos e ready-mades e tira da caixa preta um tabuleiro de xadrez (na verdade, seu Grande Vidro), onde se lê -as letras nas casas do jogo- seu lema: “Não repetir apesar do bis”.

Após dois dedos de prosa e um lance do acaso em fracasso -desvestido de celibatário mesmo, exclama que seu outro lema é “echecs”, um misto quente (“croque senhor?”) de “xadrez” e “fracassos”-, Duchamp pergunta a Augusto: O que um jovem poeta precisa levar em conta hoje, no ato de escrever? Qual é a escrita de nosso tempo?

Augusto de Campos:
Os caminhos que se abrem são muitos e imprevisíveis. Ler o melhor possível (como o que foi citado anteriormente), atentar para as possibilidades das novas tecnologias (que exigem grande investimento em aprendizado, manuais de programação, softwares etc.). Eleger a sua própria dieta poética e tentar descobrir a própria voz.


Scelsi mostra a Augusto uma relíquia do castelo de Rapallo -um bilhete manuscrito. Conta que quando perguntaram a Pound, já bem velhinho, que conselhos teria para dar aos jovens, ele simplesmente autografou: “curiosity - advice to the young - curiosity”.

Augusto de Campos:
A única coisa que não me parece inteligente é voltar atrás, retornar a padrões ultrapassados de escrita poética, a menos que se tenha tutano para fazer melhor o que fizeram Shakespeare, Camões, Hopkins, Cesário Verde...


Contra a maré da mercancia, Haroldo de Campos encanta Khlébnikov pelo cantar do riso, transluciferino logodédalo, expandido galáxias: “Ride, ridentes! Derride, derridentes!”

Sá-Carneiro sugere a Augusto arrolar uma bíblia irônica, para combater a bílis crônica da juventude transviada (e a própria incontinência que angustiava o poeta lisboeta)... “Grafogramas, grafemas, stelegramas para um jovem poeta... Ou que tal uma ‘Soneterapia’?”

Augusto de Campos:
O que tem acontecido é o contrário. O neoconservadorismo, que reponta aqui e ali, pressurosamente amparado por academias e prêmios inconfiáveis, tem demonstrado à saciedade essa afirmação. Quando o resultado não é insignificante, é desastroso, pela incompetência dos noviços, se comparados aos grandes e até aos pequenos mestres.


Entre tomos do “Tolicionário” (‘dicionário das idéias tolas e feitas’, ‘enciclopédia em farsa da estupidez humana’), que vinha compilando há anos e deixará inacabado (para desespero de Bouvard e Pécuchet), Flaubert espana o pó das páginas e pondera: “Quando é que seremos artistas, nada mais que artistas, mas realmente artistas?”.


Cotidianas digitais

Rimbaud projeta num muro de Paris os rotorelêvos duchampianos de “Anemic Cinema”, que Man Ray ajudara a cinematografar.

Na platéia ao ar livre, Mallarmé dirige-se a Cézanne: “Sem presumir o que sairá daqui -nada ou quase uma arte”.

Prestes a abandonar o ofício em troca do tráfico de mistérios (um escambo de máscara cubista e esfíngica), o projecionista pergunta a Augusto: Qual a importância das novas tecnologias para a poesia? Como lidar com elas?

Augusto de Campos:
As novas tecnologias não surgiram por acaso. Respondem a avanços científicos e são irreversíveis. Tenho para mim, que um dos méritos das vanguardas da primeira e da segunda metades do século 20 foi o de (antenas da raça) acenarem precursoramente para as transformações que haveriam de ocorrer na linguagem e na intercomunicação humana.


Espelhos vorticistas armados por Dziga Vertov projetam “animogramas” (poesia móbile de computador) de Augusto: em “o mesmosom”, Scelsi busca o grau raro do zero-zen; e “Pessoandando” vai no compasso complexo do desassossego.

Augusto de Campos:
A sintaxe da informática é extremamente familiar, congenial mesmo, à idéia do poema como projeção gráfico-espacial, organizado em estruturas rigorosas, a atritarem o verbal e o não-verbal em cor, som e movimento.


Webern e Cage fazem coro a “interpoemas” (poesia para intervenção interativa) de Augusto: no “Ininstante” em que o mouse morde uma sílaba, o verbo faz-se variante; ao abrir as “Portas do Ouver”, o olhouvido pisca em sinestesia.

Augusto de Campos:

É o ambiente ideal para a apresentação “verbivocovisual”, postulada pela poesia concreta, a partir do “Lance de Dados” de Mallarmé, poema que fecha o século 19 e abre o 20 para as aventuras da modernidade, retomadas nos anos 50, e agora já caminhando para o espaço cibernético.


Duas duplas solam em uníssono para os “morfogramas” de Augusto: Webern e João Gilberto em escala contida de “Quarteto para Saxofone op. 22” e “Eu Sambo Mesmo”; Cage e Boulez , em discordia concors de “16 Dances” e “Première Sonate pour Piano”.

Augusto de Campos:
Tão longe foi a antevisão de Mallarmé, que é possível ver nas “subdivisões prismáticas da Idéia” do seu poema um aceno para as práticas hipertextuais, características do universo digital. Pode-se perfeitamente visualizar o poema a partir da frase principal “Un coup de dés jamais n’abolira le hasard”, como a sede de camadas de “links” correspondentes às frases menores em que se ramifica o poema. Mallarmé entendeu o seu tempo e o que viria depois.


Naufragados no hiper-realismo de um monitor de cristal líquido, Mallarmé e Igitur conspiram contra a blasfêmia esparsa de Usher e tramam “uma constelação” de claras enigmagens no palco do teatro de idéias: transe mental.

Noite, demência e pedraria. Sobre o jogo de quadrados de um quadro pintado por Geraldo de Barros, Duchamp, demônio mallarmaico da analogia, brinda “o chocalhar sacrílego dos dados”.

Augusto de Campos:
Não há porque temer, por desumanizadora, a mídia digital. Cabe a nós, poetas, prometeus cibernautas, arrancar o fogo digital dos cibernadores (“controladores-governéticos”, na expressão de Timothy Leary) e humanizá-lo com o “ethos” não contaminado da arte e da invenção.


Solitude, recife, estrela. À beira de uma falésia, Mallarmé mostra a Valéry as provas de seu “Lance de Dados” - abaixo, as ondas do mar do mesmo 1897 insistem em se quebrar num pier-estela a onze fotogramas por segundo.

Cosmo-polis. O prestidigitador de bibelôs de inanição sonora pergunta ao encantador de serpente que pensa renitente: “Você não acha que é um ato de demência?”


Coda - Corte do Cristal para o Risco no Arco Teso

Peirce quixotesco e ideológico, virando o rosto da memória para um Brasil em obras e atacando pelo avesso das errâncias de panteros, Décio Pignatari declama: “apenas o amor e, em sua ausência, o amor / decreta, superposto em ostras de coragem, / o exílio do exílio à margem da margem”.

Com cicatrizes várias, mas viva, Pagu sai do túnel e marcha (Oswald no ouvido): “no fundo de cada Utopia não há somente um sonho, há também um protesto”.

Ao ver Augusto e Lygia numa das janelas que resplandecem no Parque Industrial, ela pergunta ao poeta que cultivava Solange Sohl: Como viver/sobreviver dentro da cultura brasileira?

Augusto de Campos:
A massificação cultural brasileira (fruto da desigualdade social e da ganância dos veículos de comunicação) é um fato inconteste. Numa população de 170 milhões de habitantes, o público que compra um best-disco popular de nível elevado não chega a 0,001%. Livros de poesia têm uma tiragem normal máxima de 2000 exemplares. O que significa 0,00001% da população. Música clássica tem um índice parecido. Música contemporânea, um índice menor ainda.


Empilhando um copo de cerveja sobre uma taça de schnaps e um cálice de conhaque, Lupicínio Rodrigues ergue um brinde ao tótem do pensamento coisa à-toa. Entre trancos e tamancos, sussurra para Augusto: “Chegam até a afirmar que eu tenho uma pedra encerrada no peito, quem há de dizer?”

Augusto de Campos:
O repertório poético da população se restringe, praticamente, ao da música popular. Mas a poesia da música popular é limitada pela comunicação de massa, tendo que aceitar, de saída, uma série de convenções, a partir da própria música, formatada pelo melodismo tonal. Entende-se que assim seja, porque, sem uma linguagem de acesso imediato, inviabilizar-se-ia, a curto prazo, o importante papel social que cumpre essa modalidade de arte: injetar momentos de poesia e música nas práticas de lazer da coletividade.


Ao piano, Eurico de Campos toca seu “samba concreto” para o filho Augusto. Como móbiles de Calder, bóiam na tela-canto o “triângulo vermelho do coração”, o “losango violeta da saudade” e as “linhas paralelas das almas separadas”.

Augusto de Campos:
No entanto, é preciso dizer que 90% do que se chama de “poesia” da música popular (ou mais modestamente de “letra”) -mesmo levando em conta a natureza específica das “letras“, que demandam critérios peculiares de avaliação- é subliteratura, diluição poética.


Frente a um forno a lenha, o perfeito cozinheiro das almas deste mundo anuncia seu “indigesto” prato: “A massa ainda vai comer o biscoito fino que eu fabrico”.

Augusto de Campos:
Houve um momento em que a produção mais sofisticada da área de consumo aparecia como a grande mediadora entre a cultura popular e a erudita, a ponto de Décio Pignatari ter criado o termo “produssumo” para conceituar essa situação excepcional. A poesia das letras e a própria música elevaram-se, chegando a produções-limite como “Araçá Azul” e “Cabeça”.


Abrindo picadas pelos campos de cana-de-açúcar para sempre, Caetano Veloso vai avançando por veredas que se engendram de palavra em palavra até que o araçá mude em pulsar quase mudo, dias dias dias de sonho-segredo.

Do fundo do poço, pátio dos loucos, Walter Franco enxota uma mosca do branco vão da boca, deixa-se mudo, xaxado e perdido, até perguntar (dó de doido): que é que tem nessa cabeça, saiba que ela pode ou não.

Augusto de Campos:
Mas a própria dinâmica do entretenimento, sob a pressão mercadológica, acabou retrojetando os seus produtos mais e mais no mundo do consumo, apartando-os da arte de alto repertório e das práticas experimentais mais agressivas.


Com geléia até o pescoço, Torquato Neto desfolha a bandeira de “medula & osso”. Adeus pra não voltar -let’s play that- zarpa via Navilouca: “eu quero eu posso eu quis eu fiz”.

Augusto conduz o trovador Bernart de Ventadorn a um desafio entre cantadores nordestinos -a peleja no Piauí entre o Cego Aderaldo e Zé Pretinho- “é um dedo, é um dado, é um dia”, “é um dia, é um dado, é um dedo”.

Augusto de Campos:
As poucas tentativas de reinjetar-lhe invenção e restabelecer aquela tensionante “intermídia” cultural, provindas quase sempre de músicos independentes, têm sido recebidas com indiferença e sufocadas por um meio musical circunscrito aos seus virtuosismos e excelências e aparentemente desinteressado de produções que bloqueiem a comunicação fácil com o público, que aumentou enormemente, enquanto a faixa estrita dos leitores de poesia permaneceu nos mesmos índices insignificantes.


Sabor de burrice made in Brazil. Antídoto Tom Zé: “defeito de fabricação”, “beleza demais contravenção”. Entre moqueca para rabeca e rapadura bricolada, farinha percussiva e carne de corda, multiplicar-se única: cademar?

Pavilhão Transnacional, Exposição Universal. Edgard Varèse orquestra torrentes de sons (ruídos feitos música) e projeções de luzes (poema hiperprismático) para arrasar a rala densidade dos desertos atuais.

Augusto de Campos:
Em suma: a música-poesia popular voltou a ser popular e a poesia e a música contemporâneas voltaram aos compartimentos da alta cultura. Tal situação não é muito diferente no resto do mundo. Basta dizer que, no plano dos produtos auditivos, a maior parte da grande poesia de língua inglesa, de John Donne a Dylan Thomas, é até hoje apresentada com extrema mesquinharia, em modestíssimos cassetes, onde não se oferecem sequer os textos dos poemas, enquanto se multiplicam as mais requintadas edições de CDs e DVDs de vulgaridades poético-musicais.


À mesa de um boteco lisboeta, entre goles de bagaceira, Fernando Pessoa esboça seu ensaio “Erostratus”: “Quanto mais nobre o gênio, menos nobre o destino; um gênio pequeno alcança a fama, um grande gênio alcança o descrédito; um gênio ainda maior alcança o desespero; um deus é crucificado”.

Augusto de Campos:
Já da perspectiva propriamente literária, são raros os interlocutores da poesia de invenção ou experimental (a que não é feita só para “expressar” mas para “mudar”, na fórmula cageana), tanto sob o aspecto da recepção crítica, quanto sob a ótica da produção poética, que, como no caso da música popular, tende atualmente ou à estabilização ou ao retrocesso.
Nessa conjuntura, a única atitude possível ao poeta, ou pelo menos ao poeta-inventor, mais do que nunca encantoado nas catacumbas da comunicação, é a “guerrilha artística”, como Pignatari previa há muitos anos.


Escapando de uma manifestação antiglobalização, Paul Valéry vê grafitado num muro convulsivo de Paris um aforisma seu estropiado em desprovérbio: “Contra o fácil e o fóssil, o físsil e o míssil do difícil”.

Augusto de Campos:
Resistência e recusa. Registrar, ao menos, o trabalho, para as gerações futuras, enquanto não se processe uma verdadeira elevação cultural a partir de políticas adequadas de ensino, as únicas que poderão reverter a situação, ainda que a longo prazo.


Nas calçadas pisadas de sua alma, sob o balido-balada da balalaica, Maiakóvski: “Quero ser compreendido pelo meu país/ mas se não for/ tanto faz/ passarei por vocês/ de viés/ como a chuva/ oblíqua/ passa.”

Sem dar sua alma cativa, abrindo a veia da vida, “irrecuperável, a vida vaza”, “irreprimível, vaza a poesia”, Tzvietáieva: “A resposta é: recuso”.

Augusto de Campos:
Apesar do seu insucesso pessoal (ambos se suicidaram, inviáveis, sob o tacão stalinista), eles estão mais vivos do que nunca. É sob o signo dramático da sua ética estética que se deve colocar, a meu ver, a sobrevivência da poesia, nos tempos de hoje. Sem esse norte, não vale a pena ser poeta.



Carlos Adriano
É mestre em cinema pela USP e realizador dos filmes “A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha” (placa de ouro de melhor documentário no Festival de Chicago) e “Remanescências” (aquisição/coleção The New York Public Library), entre outros.

8 comentários:

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bem, boa sorte aí no que estiver rolando, espero que possam voltar com força total.

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Lílian Alcântara disse...

parece que descobri o blog tardiamente... o barco já afundou, é?